Raizes de Brasília
Raízes de Brasília: território, cultura e memória

Candangos que deixaram tudo para erguer uma cidade no meio do nada
Antes das máquinas, antes dos mapas, antes dos traços de Niemeyer e das avenidas largas, o que havia aqui era o silêncio do mato. Um silêncio cheio de sons - o farfalhar das folhas, o canto dos pássaros do amanhecer, o rumor das águas escondidas sob a terra vermelha.
O Cerrado é um chão de memória. Suas árvores, de troncos retorcidos, não se curvam por fraqueza, mas por sabedoria. Sabem resistir ao fogo, sabem esperar a chuva. Suas raízes, profundas, não buscam apenas água: buscam tempo. Guardam histórias de povos originários, de quilombos invisíveis, de migrantes sonhadores, de candangos que deixaram tudo para erguer uma cidade no meio do nada.
Mas o "nada" era tudo.
Era cultura viva. Era reza de terço e ladainha. Era samba de roda e tambor de crioula. Era folha que cura e benzedeira que assopra. Era rede no alpendre e farinha no prato. Era o folclore do povo, que veio de longe e encontrou abrigo nesse chão firme.
Hoje, Brasília pulsa com o coração do Cerrado. E quem escuta com atenção ainda pode ouvir os ecos daquelas primeiras vozes - nas danças dos grupos populares, nas quadrilhas de junho, no boi encantado de Seu Teodoro, nos batuques das congadas. A cultura que floresce aqui tem raízes fundas, firmes, vivas.
Porque no Cerrado, tudo que resiste, floresce.
Memórias e Histórias que constroem Brasília por dentro
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A força dos que fizeram Brasília acontecer de dentro para fora
A memória candanga é composta pelas lembranças de quem viveu os primeiros dias da construção de Brasília. Vai além da história oficial: está nas experiências vividas nos acampamentos, nos primeiros colégios de madeira, nas brincadeiras nas ruas de terra, nos sabores dos doces caseiros, no cheiro da poeira vermelha, e nas vozes de pais, avós e vizinhos que ajudaram a erguer a nova capital do Brasil.
Preservar essa memória é reconhecer que cada morador, cada candango, deixou sua marca - não apenas nos prédios de concreto, mas também no afeto, na cultura popular, na educação, na infância e no modo de viver e resistir.
Por que valorizar a memória afetiva candanga?
- Recupera a história oral, popular e cotidiana;
- Fortalece a identidade cultural do Distrito Federal;
- Humaniza o processo de construção da capital;
- Inspira novas gerações com valores de coragem e coletividade;
- Resgata saberes simples: doces, festas, escolas, ofícios e sotaques.

O Espaço dos Candangos convida:
Qual é a sua memória afetiva de Brasília?
Você brincou nas ruas dos acampamentos?
Lembra do cheiro do doce no fogão a lenha ou do banho de mangueira ao lado da escola?
Conta pra gente! Sua história também constrói Brasília.
Brincadeiras de Rua nos Anos 60: Uma Viagem à Infância Candanga



Na década de 1960, as ruas de Brasília - ainda em construção - eram o principal cenário das brincadeiras infantis. Eram tempos em que a imaginação era a maior tecnologia disponível, e bastava um pedaço de madeira, uma lata ou uma bola de meia para criar mundos inteiros. O chão batido dos acampamentos servia de palco para risos, desafios e amizades que ecoam até hoje na memória de quem cresceu naquela época.
- Início da manhã: o apito da liberdade
Logo cedo, após o café, as crianças se espalhavam pelas ruas. O som de um apito ou o chamado de uma mãe à porta servia de sinal para começar uma nova jornada de aventuras. As ruas eram espaços seguros, vigiadas à distância por olhos atentos das vizinhas ou dos irmãos mais velhos.
- As grandes estrelas: as brincadeiras clássicas
Entre as brincadeiras mais lembradas, estão:
- Pega-pega e esconde-esconde - onde agilidade e astúcia definiam os vencedores.
- Queimada, jogada com bola improvisada, envolvia trabalho em equipe e coragem.
- Pular elástico e amarelinha, especialmente queridas entre as meninas.
- Carrinho de rolimã, feito artesanalmente com madeira e rodinhas de metal, exigia perícia e algum joelho ralado.
- Cabra-cega, batata-quente e telefone sem fio, que garantiam gargalhadas e surpresa.
- Brincadeiras de roda, acompanhadas de cantigas tradicionais, revelavam a força da oralidade popular.
- Ao cair da tarde: a volta para casa
Ao anoitecer, as luzes das casas acendiam e o chamado dos pais ecoava: era hora de voltar. As roupas sujas de terra, os pés descalços e os olhos brilhando contavam histórias que nenhum adulto seria capaz de inventar.
- Noites de Histórias: Ouvindo e Sentindo o Mistério
Ao cair da noite, surgiam os contadores de histórias. Ao pé da cama ou em roda com os amigos, as narrativas de assombração ganhavam vida. Algumas delas marcaram toda uma geração:
"A história que me dava medo era a da Mula sem Cabeça, contada por minha avó."
"A minha era A palavra maldita. Minha mãe dizia que era uma maldição em forma de gente."

A Diversão das Crianças Candangas na Brasília dos Anos 60
Brincar era liberdade: parques, ruas de terra e água corrente
Antes da cidade moderna se formar, Brasília já era um grande quintal de aventuras para milhares de meninos e meninas. As crianças candangas, filhas de operários, engenheiros e pioneiros, encontravam alegria em lugares simples: trilhas no mato, jogos de rua, mergulhos em nascentes e visitas a espaços públicos que surgiam junto com a nova capital.
Sem tablets ou brinquedos caros, a diversão vinha da natureza e da criatividade. Os principais espaços de lazer infantil da época incluíam:
Parque Água Mineral
Inaugurado em 1961 como parte do Parque Nacional de Brasília, era conhecido pela população como "Água Mineral".
As crianças se divertiam nas piscinas naturais de água corrente, corriam entre as trilhas e exploravam o Cerrado.

Zoológico de Brasília
Criado em 1957, recebia os pequenos visitantes com araras, macacos, tucanos e a elefanta Nely.
O zoológico se tornou um dos primeiros passeios educativos para os filhos dos candangos.

Você também viveu essa infância candanga?
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Sua memória também faz parte desse legado!
Os sabores da infância

O sabor da infância também está presente na memória
Ô tio, me dá um dinheiro aí?
Memórias doces e trocados da infância candanga na década de 60
Na Brasília em construção, onde tudo era novo, improvisado e cheio de esperança, as crianças candangas também tinham seus pequenos sonhos de consumo. Um doce na vendinha do acampamento, uma bala de coco na saída da escola ou algumas moedinhas guardadas com carinho em um mialheiro - nome dado ao cofrinho da época.
Era comum ouvir nas ruas de terra e nas cozinhas simples o clássico pedido:
"Ô tio, me dá um dinheiro aí?"
Ou ainda:
"Vó, me dá só um trocadinho pra eu comprar doce?"
Esses trocados, às vezes em moedas de níquel ou centavos de cruzeiro, representavam muito mais do que valor: eram gestos de afeto, sonhos miúdos e alegrias simples. O mealheiro, muitas vezes feito de lata, barro ou madeira, guardava moedas e segredos. Cada centavo economizado ali era uma conquista.
Doce, sonho e tradição










As crianças usavam os trocados para comprar:
- Pé-de-moleque, cocada, doce de banana enrolado no papel de seda
- Balas chita, mariola, goma de mascar Ploc
- Ou simplesmente para "alimentar" o mealheiro e esperar o dia da feira.
Nos acampamentos e nas feiras livres,
o cheiro do doce caseiro era sinônimo de infância feliz.
Na década de 60, os doces faziam parte da rotina das crianças candangas - e não estamos falando de doces industrializados, mas sim dos doces caseiros, preparados com paciência, carinho e receitas passadas de geração em geração.
Naquele tempo, um simples pedaço de doce de leite, cocada, rapadura, doce de abóbora com coco ou goiabada cascão podia transformar a tarde de uma criança.




Por que o doce caseiro era tão especial?
- Mais saboroso: feito com ingredientes naturais e sem conservantes
- Mais saudável: livre de aditivos e feito no tacho de cobre ou na panela de ferro
- Mais afetivo: envolvia família, vizinhança e memórias afetivas
- Mais econômico: aproveitava os ingredientes do quintal ou da roça
Na mesa dos acampamentos candangos, sempre havia um docinho para "adoçar a boca" após o almoço ou nos dias de festa.
Sabores da Infância Candanga: Comidas que Marcam Memórias





Quem viveu nos acampamentos da Candangolândia, Vila Planalto, Vila Telebrasília ou Núcleo Bandeirante, com certeza lembra do cheiro do doce no fogão a lenha e das filas na porta das quitandeiras.
As receitas da infância em Brasília preservam tradições e identidade cultural. Pratos como canjica (mungunzá), curau, arroz carreteiro, baião de dois e o arroz com pequi representam mais que sabores: são lembranças vivas da cozinha simples, criativa e comunitária dos candangos.
Essas receitas típicas, feitas com milho, arroz e ingredientes regionais, conectam diferentes gerações e regiões do Brasil ? do Cerrado ao Nordeste ? celebrando a diversidade cultural e a memória afetiva dos primeiros anos da capital.
Você lembra de algum desses sabores?
Você lembra qual era seu doce favorito na infância?
Sua avó ou sua mãe faziam doce caseiro?
Que tal contar sua lembrança aqui no Espaço dos Candangos?
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Primeiras Escolas de Brasília: memória da educação entre 1957 e 1960





A história das primeiras escolas de Brasília começa ainda antes da inauguração da cidade, com a chegada dos candangos e suas famílias em 1957. Para atender as crianças dos trabalhadores que vinham de várias partes do Brasil, foram criadas escolas provisórias, que marcaram o início da educação no Distrito Federal.
Destaques históricos das primeiras escolas:
1957 - Escola Júlia Kubitschek (Cidade Livre, atual Candangolândia)
Primeira escola da Novacap, projetada por Oscar Niemeyer e construída em apenas 20 dias. Hoje abriga o CEM Júlia Kubitschek.
1958 - Escola Classe 01 do Planalto
Iniciou como Escola Engenheiro Pery da Rocha França.
1959 - Expansão escolar em acampamentos e áreas rurais
- Escola da Granja Modelo 3 (Torto)
- Escola da Construtora Rabello
- Escola do CCBE e COENGE
- Escola da Metropolitana (Núcleo Bandeirante)
- Escola da Fundação da Casa Popular
- Escola da Candangolândia
- Escola da Construtora Planalto
1959 - Escola da Granja do Tamanduá (atual CEF Tamanduá)
Atendia filhos de famílias da Fazenda Tamanduá, zona rural próxima.
1959 - Escola Industrial de Taguatinga (atual CEMEIT)
Primeira escola de ensino profissionalizante de Brasília.
1960 - Escola Classe do Paranoá (atual CEF 01 do Paranoá)
Atendia filhos de famílias do antigo acampamento da Vila Paranoá.
1960 - Jardim de Infância da 208 Sul (IPASE)
Destinada a crianças de 4 a 6 anos, passou por várias reformas estruturais.
1960 - Escola CASEB (atual CEF CASEB)
Projeto arquitetônico em formato de "H", com construção acelerada para atender à demanda educacional urgente.
1961 - Centro de Ensino Médio Ave Branca (CEMAB)
Fundado em 1961 com o nome Ginásio de Taguatinga, o CEMAB é uma das instituições de ensino mais tradicionais de Taguatinga (DF). Suas atividades começaram nas instalações da Escola Industrial de Taguatinga (atual CEMEIT), com turmas do curso ginasial diurno. Em agosto do mesmo ano, passou a ocupar prédio próprio, ainda em construção.
Segundo levantamento sociocultural realizado em 2008, a maioria dos estudantes vinha de regiões como Samambaia, Recanto das Emas, Riacho Fundo e Riacho Fundo II, reforçando a importância da escola para a educação pública regional. A instituição contava com cerca de 70 turmas e mais de 200 profissionais da educação, com uma gestão democrática e participativa.
Fontes -Museu da Educação: Primeiras Escolas SEEDF: Escolas Pioneiras de Brasília (PDF)Agência de Notícias Uniceub: Conheça como foi construída a primeira escola de Brasília
Mostra Escolas Pioneiras de Brasília - Raízes de Brasília
História da Escola da Metropolitana
A Escola da Metropolitana foi uma das primeiras unidades de ensino criadas no Distrito Federal, inaugurada em abril de 1959 para atender filhos de trabalhadores do Acampamento da Metropolitana, formado em 1956. Esse acampamento abrigava engenheiros e operários da Companhia Metropolitana de Estradas, responsável pelas obras de terraplanagem da pista do futuro aeroporto de Brasília. Localizada na atual Vila Metropolitana, bairro do Núcleo Bandeirante, a escola foi construída em madeira e iniciou com 162 alunos.
Em 1988, a comunidade mobilizou-se para preservar a memória da instituição e iniciou uma campanha de reconstrução. A escola foi reformada e tombada como patrimônio em 1995. Atualmente, funciona como o Centro de Ensino Fundamental Metropolitana.
Depoimentos e Memória
O projeto resgata memórias da infância candanga com relatos de ex-alunos. Uma das lembranças destaca os estudos da aluna, Rosangela Alves Domingos, entre 1963 e 1967 na Escola Metropolitana, com o curso primário do 1º ao 5º ano e o exame de admissão para o curso ginasial. Outra memória vem do Centro de Ensino Médio Ave Branca (CEMAB), onde, nos anos 70, era possível cursar o antigo "Curso Normal" para formação de professores.
Esses depoimentos reforçam o valor histórico das escolas na formação cidadã e cultural de Brasília.
Escolas Extintas de Brasília (1959)
As escolas provisórias foram fundamentais nos primeiros anos da capital, mas muitas deixaram de existir:
- Escola da COENGE (Acampamento da Construtora COENGE)
- Escola da Candangolândia (Acampamento da Novacap)
- Escola do Acampamento da Construtora Rabello
- Escola do IPASE (corresponde à atual SQS 206)
- Escola da Vila Amaury ou Vila Bananal (área hoje submersa pelo Lago Paranoá)
- Escola da Papuda (região da antiga Fazenda Papuda)
- Outras provisórias: Cascalheira, Terrabrasil, Pedreira do Torto, Fazenda do Gama, Pacheco Fernandes.
Curiosidades Candangas















