Vozes do Cerrado
A palavra candanga floresce
Por Nina Reis





Se Brasília nasceu do traço, ela cresceu pelo texto. A palavra é seu segundo alicerce. Cada feira do livro, cada sarau, cada lançamento de autor local reafirma o poder da arte como ferramenta de pertencimento.
No coração do cerrado, Brasília pulsa não apenas com a política, mas também com os ritmos, as cores e os cantos das tradições populares vindas de todas as partes do Brasil. Da batida forte do tambor de crioula ao gingado alegre das quadrilhas juninas, os grupos folclóricos da capital guardam a memória dos povos que ajudaram a erguer a cidade.
- O Bumba Meu Boi do Seu Teodoro - Patrimônio de Brasília
Fundado em 1961 pelo maranhense Teodoro Freire, o Bumba Meu Boi tornou-se símbolo de resistência e alegria nos acampamentos de Sobradinho. Com seus bois coloridos, zabumbas e personagens encantados, o grupo é hoje Patrimônio Cultural Imaterial do DF.
"Seu Teodoro não trouxe só um boi, trouxe um Brasil inteiro nas costas", dizem os antigos moradores.
- Parafolclóricos: Coração dançante da capital
Grupos como o Candanguinho, nascido em 1970, e o Frutos do Pará, que resgata tradições da Amazônia, são verdadeiras escolas vivas de cultura. Com figurinos vibrantes e repertório de todas as regiões, eles mantêm acesa a chama do folclore nas escolas e centros culturais.
- Candanguinho: forma crianças e jovens com repertório diversificado.
- Frutos do Pará: exalta carimbó, siriá e lundu.
- Bambelô: criado por maranhenses do DF, encanta com cacuriá e tambor de crioula.
- Quadrilhas juninas: tradição que não perde o passo
No mês de junho, Brasília se transforma em um arraial gigante. Grupos como Formiga da Roça, Matutos do Planalto e Estrela do Sertão movimentam comunidades inteiras com ensaios, figurinos e coreografias elaboradas.
- As quadrilhas do DF vão além da dança: são espetáculo, resistência e identidade.
- Congada de Taguatinga: fé e festa afro-brasileira
Herança dos congadeiros de Minas e Goiás, a Congada de Taguatinga mistura religiosidade, música e dança em louvor a Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Um cortejo de fé, cores e batuques que ecoa nas ruas da cidade desde os anos 1970.

Festa dos Estados celebrava a diversidade cultural dos migrantes
A Festa dos Estados foi um dos eventos mais simbólicos para os candangos. Realizada desde o início da década de 1960, a festa foi criada com o objetivo de celebrar a diversidade cultural dos migrantes que vieram de todos os cantos do Brasil para o Planalto Central.
Quando começou:
A primeira edição da Festa dos Estados ocorreu em 1960, logo após a inauguração de Brasília. Idealizada como uma forma de integrar os trabalhadores recém-chegados, a celebração se tornou um símbolo de pertencimento.
Por que foi criada:
- Valorização cultural: mostrar as tradições de cada estado de origem dos candangos.
- Integração social: promover união entre os diferentes grupos de migrantes.
- Identidade brasiliense: ajudar a construir uma cultura local a partir da diversidade.
O que significava para o candango:
Para os candangos, a Festa dos Estados era mais do que uma celebração - era um reencontro com suas raízes, um espaço de memória, saudade e resistência. Cada barraca representava um estado, com comidas típicas, danças, roupas e músicas regionais, como o forró, o samba de roda, o bumba meu boi e o frevo.
A festa ajudou a consolidar Brasília como um mosaico cultural do Brasil, reforçando a importância do respeito às origens e à pluralidade. Até hoje, muitos eventos populares e festas juninas no DF se inspiram nesse modelo.O Significado da Festa dos Estados para os Candangos
A Festa dos Estados teve papel fundamental na construção da identidade cultural de Brasília. Criada em 1960, ainda nos primeiros anos da capital, a celebração reunia apresentações folclóricas, culinária típica e expressões culturais de todas as regiões do Brasil -refletindo a diversidade dos candangos.
Mais do que um evento festivo, a festa representava um encontro de saudades: era ali que nordestinos, mineiros, goianos, sulistas e nortistas encontravam um pedaço de seus lugares de origem, compartilhando histórias, músicas e sabores. Era também um espaço de integração e pertencimento, fortalecendo os laços comunitários nos acampamentos e vilas de trabalhadores, como o Núcleo Bandeirante (Cidade Livre), Ceilândia, Taguatinga e Brazlândia.
Durante décadas, a Festa dos Estados foi realizada com apoio do governo local, fundações culturais e associações comunitárias, sendo um dos principais eventos populares do Distrito Federal nas décadas de 1960 a 1980. Porém, a partir dos anos 1990, a festa começou a perder espaço devido à burocratização, cortes de verba e mudanças nos formatos culturais. A última edição com estrutura oficial ocorreu no início dos anos 2000.
Embora o evento não exista mais em sua forma original, seu legado cultural permanece vivo em festas regionais e celebrações populares, como:
- Festa da Colheita, em Ceilândia
- Arraial de Taguatinga
- Festa Junina de Riacho Fundo
- Feiras comunitárias em Sobradinho, Samambaia e São Sebastião
Essas iniciativas são herdeiras da antiga Festa dos Estados, celebrando o orgulho candango e a pluralidade cultural que formou Brasília.
Quer saber mais? Acompanhe o #espacodoscandangos, no instagram.
Por que preservar?
Esses grupos não são apenas manifestações folclóricas. São formas de existir, comunicar, resistir e pertencer. São a memória afetiva dos candangos, plantada no cerrado e regada com música, suor e devoção.
Quer conhecer esses grupos de perto? Fique atento à programação cultural:
- Fecoarte - Festival de Cultura Popular
- Festa do Divino em Planaltina
- Arraial do DF (junho a julho)
Se você tem registros, relatos ou lembranças de grupos folclóricos do DF, envie para nós!
espacodoscandangos@ninaliterarte.com.br
Lugares Emblemáticos que Mantêm as Raízes Nordestinas no DF

A Feira de Ceilândia é um verdadeiro reduto nordestino
Brasília não se fez só de concreto, mas da força dos candangos - muitos vindos do Nordeste. Em diversas Regiões Administrativas (RAs), espaços públicos e culturais mantêm vivas as tradições nordestinas, por meio da gastronomia, da música, do artesanato e da memória coletiva.
Feira Central de Ceilândia
Considerada a maior feira popular do Distrito Federal, a Feira de Ceilândia é um verdadeiro reduto nordestino. Ali, o visitante encontra:
- Restaurantes com comida típica (baião de dois, sarapatel, buchada);
- Roupas, artigos religiosos e artesanato;
- Apresentações de forró e repentistas;
- Sabores do sertão e o sotaque da saudade.
Mercado do Núcleo Bandeirante
Localizado na antiga Cidade Livre, o Mercado do Núcleo Bandeirante foi um dos primeiros centros de abastecimento e trocas da capital:
- Mantém a arquitetura popular original;
- Abriga bancas com especiarias nordestinas;
- É símbolo da ocupação pioneira dos operários vindos do Norte e Nordeste;
- Carrega memórias da migração e do cotidiano dos candangos.
Feira do Gama
A Feira Permanente do Gama é outro polo cultural e gastronômico nordestino:
- Comidas regionais, como pamonha, carne de sol e cuscuz;
- Feirantes com forte vínculo com os estados nordestinos;
- Ambiente de tradição e convivência comunitária.
Feira do Paranoá
Nascida de um antigo acampamento, a feira do Paranoá guarda um pedaço do Nordeste em pleno DF:
- Vendedores que mantêm as tradições familiares;
- Cultura oral e culinária preservadas;
- Forte influência maranhense e piauiense.
Feira do Produtor de Planaltina
- Mistura de feira livre e centro de convivência,
- Produtos da agricultura familiar com raízes no modo de vida do interior nordestino;
- Eventos culturais que valorizam a música e o artesanato típicos da região.
Esses espaços representam mais que comércio - são territórios afetivos e culturais, onde a identidade nordestina se reafirma diariamente. Eles fazem parte do legado vivo dos candangos e mostram que Brasília não é só capital do país, mas também um pedaço vibrante do sertão no coração do Brasil.
